Lições de Abismo

(2001)

Sou como uma marionete quebrada cujos olhos tivessem caído para dentro.

Cioran


“Arrumei os livros escolhidos, ajeitei as rosas na jarra, e pus em ordem o armário de roupas, sentindo nisso o prazer do solteirão que se instala e um pouco do viajante que inventaria
 o seu beliche. E agora, correndo os olhos em volta, a verificar ainda se alguma coisa destoa, sentei-me na poltrona, para esperar com
decência, com ordem, a visitante anunciada pelo dr. Aquiles.”

No romance de Gustavo Corção, José Maria, um professor, ao descobrir que está gravemente enfermo, recolhe-se a sua casa para refletir. Ali, mergulhando nos abismos do misterioso criptograma da memória, avalia o sentido da própria vida. E esse mergulho é feito por escrito, em um diário que, à medida que o tempo passa, vai-se tornando cada vez mais fragmentado e lúcido.

Em nossa adaptação, o professor José Maria transforma-se em homem de teatro. Ao contrário do intelectual que encontra em casa a cela monástica para a derradeira meditação, o artista volta-se para o palco. Porque é ali onde o artista de teatro interroga a vida. A sua e a de todos.

O palco é o altar onde o estertor próprio da transcendência deve tornar-se visível, desvelando o homem através da exposição poetizada da sua presença. Por isso é aí, colocando-se em risco ao expor a própria fragilidade existencial perante os espectadores, que nosso personagem procura o sentido de sua existência: “Como os supliciados que são incendiados e fazem sinais de dentro das suas fogueiras. “(Artaud, O Teatro e a Cultura)

as estórias que ouvi quando criança, as tenho recontado como diretor. só pra tentar conversar com o mundo. agir, Édipo me ensinou, é sempre correr o risco de não ser compreendido. por mais que tudo fique claro.

desde criança me atraem os lugares altos. ombros, árvores, telhados, penhascos… o perigo do próximo passo e a excitação com o constante precipício que é a vida. a arte me ensinou a ter vertigens semelhantes…”- viver, o senhor sabe, é um negócio muito perigoso.” o perigo é irmão do fim, como o medo é da morte.

o teatro nos faz há muito tempo. isso é bom. afinal, toda orientação induz à esperança, à imaginação, à relativização do ser, do aqui e do agora. em última instância, ao fim. a religião e a arte são bússolas, e eu escolhi a segunda. por isso, dirijo com a intensidade dos que rezam fundo. por isso, tendo a contar estórias. porque nesses fragmentos da vida, nos vejo representados, sempre.

um russo, desde o início do século, gostava do meu lema nesse espetáculo: “a arte está para a realidade, assim como o vinho está para a uva.” o vinho não nos leva necessariamente à uva, já arte… o teatro, em nosso caso, tem que expor a vida… e a morte. porque elas dançam sempre juntas, principalmente quando evitamos ver os “caroços” da realidade.

a realidade, é sempre representação. no palco ou na vida. embora geralmente melhor no primeiro. afinal é preciso macerar, fermentar a significação das presenças do ator e do espectador para que o vinho cênico provoque a embriaguez pretendida. a arte não é um inconseqüente exercício com o acaso, mano.

os fragmentos de sensações nos formam, por mais que a gente evite. o contínuo, ou o todo, é feito de pedacinhos espalhados no espaço da vida. quando não, sempre surgem momentos de se perguntar que importância a gente deu a essa ou aquela migalha. daí precipitam-se abismos sob a gente, como na vida o céu cai sobre a nossa cabeça. o mais é a fala da cena, e da presença do homem no limite da vida.

Mario Santana

Ficha Técnica

Direção Mario Santana
Assistência de Direção Fernando Weffort
Fotografia e Cenotécnica Wellington Moriconi
Produção Grupo Tempo
Adaptação do Texto Roberto Mallet
Romance Original Gustavo Corção
Atuação Roberto Mallet
Fotografia Juliana Eiras – Brunos Solis