Judite (1993)

Como toda a Bíblia, Judite é antes de tudo uma história simbólica, uma alegoria.  Um povo religioso e espiritualizado é cercado por um exército de bárbaros guerreiros, que além de mostrarem-se ávidos por riquezas materiais e por sangue, exigem que seu chefe seja adorado como um deus.  Estabelece-se um claro confronto entre dois pontos-de-vista, duas visões de mundo. Entre o sagrado e o profano.

O poder material e numérico do exército assírio (o poder da força, masculino) é vencido pela fé e pela astúcia de uma mulher.  O universo racionalista e opressor é vencido pelo amor e pela inteligência da alma.

 

Vimos nessa história uma metáfora da situação do mundo contemporâneo, onde a poesia e o espírito são incansavelmente assediados (mas não derrotados) pelo poder das armas e do dinheiro.

Nossa montagem baseia-se nessa visão dual proposta pelo próprio texto.  Os assírios vestem um figurino pesado e movimentam-se de maneira forte e violenta, enquanto os judeus (e particularmente Judite) têm movimentos leves e agudos.  Os personagens assírios são interpretados com uma linguagem predominantemente grotesca, os israelitas em um registro lírico.  Até a metade do espetáculo, esses dois mundos são apresentados separadamente, depois vão se interpenetrando até chegar ao confronto final, representado pelo “duelo” entre Judite e Holofernes.

O cenário é dominado por uma grande arca, colocada no centro da cena.  Esse objeto assume várias funções: em certo momento é o trono do general Holofernes, em outro a arca da aliança dos israelitas, depois é o baú de onde Judite retira as jóias e vestidos com que se apresentará no acampamento assírio, e por fim a cama/altar em que é assassinado (imolado) o inimigo dos judeus.  O chão é coberto de folhas de jornal, que sugerem tanto o universo profano (cotidiano e horizontal) dos assírios quanto as areias do deserto.

A luz que banha o acampamento é solar, homogênea e abrasadora.  A montanha é iluminada por tons de violeta, por luzes de archotes e de velas, ganhando assim uma riqueza de volumes e tonalidades, que se contrapõem à aspereza e bi-dimensionalidade do acampamento.

Essa mesma dualidade se observa no tratamento sonoro: entre os assírios, bastões que percutem, vozes potentes e bruscas, passos pesados; entre os judeus, cânticos, preces, vozes de súplica e de louvor.

O Livro de Judite foi escrito por volta do ano 150 a.C., e narra o cerco que sofreu o povo de Israel pelos exércitos do rei Nabucodonosor, e a sua libertação pela ação de uma mulher.

Nabucodonosor, rei da Assíria, envia seu general Holofernes contra todos os povos do ocidente, por lhe terem recusado apoio em uma guerra contra os medos, exigindo não apenas sua submissão mas também que seja Nabucodonosor adorado e cultuado como um deus.

Holofernes subjuga e saqueia vários povos, chegando por fim à fronteira da Judéia.  Em um conselho de guerra, o amonita Aquior informa o general sobre a história e a religião dos israelitas, prevenindo-o de que seu Deus é poderoso.  Irritado com essa admoestação, Holofernes expulsa Aquior de seu exército e cerca a cidade de Betúlia, situada sobre uma montanha, cortando aos seus habitantes o acesso às fontes, esperando assim sua rendição por causa da falta de água.

À medida que o tempo passa, os moradores de Betúlia vão perdendo a esperança na ajuda de seu Deus e, já fracos e cansados pela fome e pela sede, incitam os seus sacerdotes a entregarem-se a Holofernes.  Surge então Judite, viúva forte e piedosa.  Ela repreende seu povo por sua falta de fé e por escolher curvar-se perante as tropas de Nabucodonosor, adorando-o.

Judite concebe um plano, não o revelando a ninguém.  Adornada com todo esmero, dirige-se ao acampamento dos assírios.  Levada à presença de Holofernes, promete-lhe entregar o povo judeu em suas mãos, obtendo a liberdade de movimento por todo o acampamento.

Holofernes, querendo conquistar a bela judia, convida-a para um banquete em sua tenda.  No intuito de ficar a sós com ela, o general faz com que seus servos e soldados se retirem.  Num jogo de sedução com Holofernes, Judite canta para ele, ao passo que o embriaga.  Holofernes acaba adormecendo.  Ela então, tomando da espada do próprio general, corta-lhe a cabeça, e apressadamente abandona o acampamento assírio. 

Ficha Técnica

Elenco

Alessandro Cézar
Andréa Macera
Bel Ribeiro
Dora Cohen
Du Dibo
Helena Percheiro
Rosa Primo

Figurinos, Adereços, Maquiagem

João Netto

Música

Homero Feijó

Iluminação

Betho Rocha

Adaptação e Roteiro

Roberto Mallet

Fotografia

Daniel Ryo Shinozaki

Produção

Andréa Macera
Dora Cohen

Operação de Luz

Alexandre Veras

Copa

Maria Neusa

Programação Gráfica

Luís Filidis

Direção

Roberto Mallet