HAMLET face à morte (2014)

Cartaz Hamlet

Num tempo em que a arte busca adaptar-se a novos meios e orienta-se a cada dia para novos fins, o teatro como que vagueia pela cultura como um fantasma, desorientado; no mundo dos pós-conceitos, o próprio conceito de representação é colocado em xeque e, de forma geral, todos os conceitos, esvaziados de qualquer significado, como espectros assumem forma aqui e ali, sem substância. Não há mais clareza quanto ao papel da arte na vida do homem. O teatro, em especial, que desde sua origem foi “o lugar aonde se vai para ver” – para contemplar a virtude nas ações dos grandes heróis e a estupidez nas dos 

ridículos – hoje, no tempo do homem “respeitável”, medianamente honesto, já nem tão virtuoso e nem tão vil, o teatro não encontra mais o seu lugar.

A Dinamarca de Hamlet parece ter sido transposta ao tempo atual de tal modo que não é mais preciso imaginá-la, ao defrontar-se com o clássico de Shakespeare, mas apenas reconhecê-la ao redor. A história do príncipe dinamarquês, que há mais de quatro séculos ecoa pela cultura ocidental, ainda tem muito a dizer ao homem contemporâneo, que parece ter se esquecido da própria condição e da única certeza que pode ter em vida: a da própria morte.

O Grupo Tempo vai à cena justamente para lembrá-lo disso, de sua própria natureza e mortalidade. Como Horácios, os atores do grupo assumem a missão de contar a todos a história do homem que questionou a própria existência, e o fazem pela perspectiva do teatro como isca da mentira, da convenção, que busca atrair a carpa da verdade – a verdade sobre o homem e seu destino final incontornável. Em HAMLET face à morte, o teatro é a luminosa caixa-preta de onde a morte é quem brada: “Lembra-te de mim!”.

Encenação

Na peça, sete dos oito personagens principais morrem, deixando evidente a presença incontornável da morte por toda a trama. Assim, o espetáculo evolui com os caminhos para a morte que cada personagem realiza ao longo da fábula. Todas as ações humanas enfileiram uma mesma trilha que, mais cedo ou mais tarde, leva à morte como destino final – a existência como uma prisão. Por isso, na estética da cena as  grades simbolizam a prisão, a consciência, a Dinamarca, o mundo; crânios e caveiras manipuladas por atores e personagens em situações-limite buscam gerar impacto e orientar a sensibilidade do espectador para a percepção da morte; assim como os personagens, atores e público também estão realizando ações que fazem parte da própria trajetória para a morte.

O espetáculo tem caráter épico; as ações dos atores não apenas contam a história, mas o fazem explicitando o modo como ela está acontecendo no palco. Assim, o espectador pode aproveitar tanto a dramaticidade da fábula quanto a construção da narrativa cênica empreendida pelos atores, pela ambientação cenográfica e sonora, pela evolução da iluminação, etc. Os atores evidenciam sua condição de contadores e contam a história de Hamlet se colocando na posição de Horácio, fiel companheiro do protagonista, a quem ele incumbe justamente essa missão – a de contar sua história para que o mundo a conheça. Por isso, os atores tocam ao vivo – baixo, piano e instrumentos percussivos – gerando sonoridades que sustentam e dialogam com as cenas. Nestas as palavras ganham vida e acontecem através do embate entre os personagens, da constante movimentação de cortinas, grades, portas e cadeiras, que desenham os ambientes e as forças em conflito.

 

Ficha Técnica

Elenco

Roberto Mallet (Fantasma e 1º ator)
Felipe Denardi (Horácio)
Giuliano Bonesso (Polônio e Coveiro)
Juliana Franco (Rainha Gertrudes)
Maíra Perroni (Ofélia)
Rafael Quelle (Hamlet)
Roger Campanhari (Laertes)
Thomaz Perroni (Rei Cláudio)

Texto original

William Shakespeare

Adaptação

O Grupo

Direção musical

Marcelo Onofri

Direção

Mário Santana