Canto de Outono

(1999)

Peça vasculha o tempo interior

Valmir Santos

São Paulo – A aventura do teatro pede uma entrega incondicional do ator. Ao seu desempenho propriamente técnico, há de se acrescentar um tanto de poesia, de desprendimento do chão batido da realidade. Entre os caminhos para vislumbrar tal essência, liberdade e disciplina são itens fundamentais, ainda que aparentemente opostos – aparentemente, mas, em verdade, complementares.
São impressões como essas que brotam do espetáculo Canto de Outono, em cartaz no Centro Cultural São Paulo, com o empenhado grupo Tempo. Formado há 7 anos, o Tempo fundamenta sua pesquisa no trabalho do ator, e o faz com rigor. Desde a narrativa implícita até a ação velada, tudo é estruturado a partir do elenco. Os cinco atores constituem o principal elemento no palco. Os poucos objetos, como uma escada e uma maleta, também ganham vida por obra e graça dos intérpretes.

O fenômeno do tempo, que dá nome ao grupo, serve como matéria-prima na concepção do trabalho. Os silêncios que pontuam propositadamente o espetáculo, vasculhando o tempo interior, colaboram para a construção da ilusão cênica. O texto de Roberto Mallet, também o diretor, é todo ele uma parábola da modernidade e seu processo de alijamento do ser humano. Temos um casal de protagonistas numa relação que concentra as vicissitudes humanas, seus anseios, frustrações e tentações. Nesses tempos em que a ética naufraga nas instâncias pública e privada, vemos o amor expandido como condição romântica e principalmente existencial.

Ao redor do casal, flutuam os seres que ora atiçam ou são cúmplices da Queda e Ascenção. Os outros e o eu fragmentado. A dimensão poética do texto de Mallet é corroborada pela incorporação de versos de Charles Baudelaire (Canto de Outono, que dá origem ao título da montagem), Dante Alighieri (Divina Comédia) e da Bíblia (Gênesis 3 e 5). Os atores Bel Ribeiro, Dora Cohen, Fernando Weffort, Flávio Crepaldi e Wellington Moriconi demonstram afinidade em cena. Canto de Outono requer sutilezas interiores (De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro se ele vier a perder a sua alma?, diz um trecho bíblico citado no programa da peça).

E o elenco consegue associar à introspecção um tempo lúdico e mágico, que corresponde a um teatro seminal – do rito medieval à commedia dell’arte. As poucas aparas a serem feitas, notadas na estréia, certamente serão lapidadas ao longo da temporada (o tempo dos diálogos é um desafio e tanto, e sua dilatação, por vezes longa, distrai a atenção do espectador). Mas a essência maior de Canto de Outono, como se disse, está lá, brilhando no olhar e no gesto de cada ator; numa gargalhada gostosa ou num rosto desesperador. Um olhar humanista, em suma.

O Diário de Mogi – Caderno A
Mogi das Cruzes (SP), 27 de julho de 1999