Auto-Escola de Arte Dramática GREGORIO
(2002)

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não sou o seu bobo
mas seu corruptor de palavras

Shakespeare, Noite de Reis

Auto-escola de arte dramática é uma comédia que, através do jogo clownesco e do tema do próprio teatro, coloca cada um de nós diante da questão: “qual o sentido das minhas ações, a cada momento?” Em uma aula-aberta sobre teatro, GREGORIO, um clown bastante diferente da figura lírica a que estamos mais acostumados, diverte ensinando. Descendente dos bufões, bobos e menestréis medievais e renascentistas, é estranho ao universo circense, numa linhagem que inclui desde Till Eulenspiegel (séc. XIV) até Leo Bassi, passando pelos extraordinários clowns shakespereanos (como o citado acima, que também afirma que “as palavras ficaram muito despudoradas, desde que as letras as desonraram”). GREGORIO reflete sobre sua própria condição; é uma máscara que tem consciência de ter sido criada por um ator e de pertencer a um mundo ficcional, lembrando sob este aspecto o universo de muitos textos de Pirandelo. Sua virtude reside particularmente no tratamento vivo e muitas vezes desconcertante da palavra.

É através da palavra que GREGORIO explora um de seus temas prediletos: o teatro e a representação. Já na primeira fala do espetáculo a relação com seu duplo é explicitada (na mistura macarrônica de português e espanhol que utiliza): “Bien-venidos a la auto-escola de arte dramática Gregorio! Acá usted aprende en una hora lo que Roberto Mallet lleva seis meses para enseñar. Y no lo consegue!”

Falando sobre o ator e a arte da representação, o espetáculo nos possibilita um confronto com algumas questões essenciais, tanto para o artista como para todos nós: “qual o sentido do teatro hoje? que teatro fazemos? qual o sentido da ação na vida de cada um de nós? por que o espectador está ali, no teatro, e não em outro lugar? o que ele vem buscar ali? o que essa arte tecida na própria presença do ator tem a dizer para um mundo tecnológico e cada vez mais virtual?”

Roberto Mallet começou sua investigação sobre o clown com a diretora gaúcha Maria Helena Lopes, no Rio Grande do Sul. Ela fizera recentemente um estágio na Escola de Jacques Lecoq, pedagogo francês responsável pelo ressurgimento do interesse pelo clown no Ocidente. Em 1982, Maria Helena criou com o Grupo Tear o espetáculo Os Reis Vagabundos, uma das primeiras montagens brasileiras que têm influência direta da prática teatral e pedagógica criada por Lecoq. Mallet desempenhou nesse espetáculo a função de escriba (registro escrito das situações, ações e cenas criadas nos ensaios).

O acompanhamento cotidiano do processo de criação e o exercício de transcrever para o papel as ações realizadas pelos atores, com o olhar da diretora enquadrando e conduzindo todo o trabalho, foi fundamental na formação teatral de Mallet. Era uma experiência predominantemente teórica, e entretanto estabeleceu o terreno sobre o qual ele viria a chegar a uma poética e pedagogia próprias.

O tema do clown foi retomado somente em 1987, com a montagem de “Na praça…”, direção de Zé Gallas. Só então Mallet começou a construir seu palhaço, que inicialmente movimentava-se em um registro mais lírico. Em 1991 é que surge o clown GREGORIO, quando a palavra passa a ser a matéria principal de sua performance.

GREGORIO vem sendo trabalhado ao longo dos 15 anos que separam aquele primeiro espetáculo de Auto-escola de arte dramática. Esporadicamente. Além das pequenas aparições que fazia em festivais de teatro e locais públicos, em 1991 Mallet montou “Lição de Etiqueta” e em 1995 “Judiaria”. A parceria com o diretor Mario Santana, iniciada com a montagem de Lições de Abismo, permitiu que novos estímulos se agregassem à investigação do aspecto cáustico pretendido e se concretiza com esta aula-aberta ministrada por GREGORIO neste espetáculo.

O trabalho de Mallet no campo clownesco não se reduz à interpretação de GREGORIO. Além da criação e direção de espetáculos, dá cursos e palestras sobre o tema.

Ficha Técnica

Elenco

Roberto Mallet

Dramaturgia

Mario Santana e Roberto Mallet

Assistente de Direção

Fernando Weffort

Produção

Grupo Tempo

Direção

Mario Santana