Poesia e Filosofia

Entrevista de Luiz Jean Lauand com Adélia Prado


O Olhar: Mirandum e theoria

(…)

LJ: Adélia, você poderia retomar aquela frase que disse, há pouco, sobre o Céu?

AP : Você falou que o que há de comum entre o filósofo e o poeta é o mirandum e isso eu traduzo por miração. E eu acho que é isto mesmo: quando a gente está apaixonado, quando a gente experimenta a paixão, você quer segurar a pessoa e falar: “Fica na minha frente para eu te olhar…”. Não precisa nem casar, é só olhar, é só olhar…”. Tenho um poema em que eu acho que dei conta de falar isso, “A Terceira via”:

Meu espírito – que é o alento de Deus em mim – te deseja
pra fazer não sei o que com você.
Não é beijar, nem abraçar, muito menos casar
e ter um monte de filhos.
Quero você na minha frente, extático
– Francisco e o Serafim, abrasados -,
e eu para todo o sempre
olhando, olhando, olhando…

Então eu acho que o Céu…, quando a gente fala em experiência de mística, da alegria inefável dos santos, isso está no olhar, sabe? Então, você chega no Céu: “agora descansa, pára o mundo que eu vou olhar a face divina!”.

Então, nem precisa casar mesmo, pode parar aí, que já está no Céu.

Eu acho que a poesia é isto: porque ela é algo que se mostra, eu acho que a poesia é um fenômeno que realmente escapa ao poeta; ele, coitadinho, é um proletário da coisa, um operariozinho, um operário braçal. Então, há uma coisa, algo, algo, algo quer se mostrar…

Sabe que idéia que eu tenho do Espírito Santo? E tem tudo que ver com o que estamos falando… Eu acho que Deus, Ele tem um desejo de ser visto, sabe, Ele deseja, Ele precisa… É como disse Mestre Eckhart: “Ele precisa de mim…”, porque Ele me salvou tanto… Ele deseja ser visto e precisa ser visto. E, para mim, a poesia é isto: aquilo que precisa ser visto, se mostra, naquele momento. 

 

Criação Divina, Participação e Poesia

AP: é o que a gente chama de experiência poética ou momento poético. Então, realmente, é estado de graça, não tem jeito. Eu acho que o fundo da experiência religiosa e da experiência poética – à revelia dos poetas ateus, à revelia desse povo que nega isso; é… à revelia deles, à revelia deles… – que o sagrado se mostra. 
É um desejo de prostração que dá na gente, um desejo de adoração: Você quer adorar e você sabe que não é mais aquilo que você tá produzindo, não é o rastro, não é mais a pegada como eu achava antes… Com aquela ânsia…, mas é a coisa que se mostra atrás disso.

Eu tenho um poema inédito que fala isso: “Acácias”. 

ACÁCIAS
Minha alma quer ver a Deus.
Eu não quero morrer.
Quero amar sem limites
E perdoar a ponto de esquecer-me
Radical, quer dizer pela raiz
O perdão radical gera alegria
Exorciza doenças, mata o medo
Dá poder sobre feras e demônios
Falo. E falo é também membro viril,
Todo léxico é pobre,
Idiomas são pecados;
Poemas, culpas antecipadamente perdoadas
Eis, esta acácia florida gera angústia
Para livrar-me, empenho-me
Em esgotar-lhe a beleza
Beleza importuna,
Magnífica insuficiência,
Porque ainda convoca
O poema perfeito.

O poema, minha Nossa Senhora!…, o que está por trás dele é o que interessa, por isso que não dá para adorar a arte (os adoradores da arte…). A arte…, ela remete, ela remete… A única coisa que não remete é Deus. Deus, Ele não remete a mais nada. E o que você quer? Esta acácia aqui, essa benditinha dessa acácia…, o que é uma acácia florida? é uma coisa tão angustiante, uma coisa bela demais, que você quer morrer pra ter sossego, não é? (risos). Aí você faz um poema pra ver se descansa. Mas, é porque a alma, ela quer realmente adorar, ela quer seu fundamento, não é? A gente quer adorar a Deus, essa é a única coisa…, eu acho que a gente nasceu só pra isso…

LJ: E qual o papel da Criação. Você diz, em um dos títulos: “Tudo que sinto esbarra em Deus”, seria o conceito de participação em S. Tomás?

AP: Eu acho que é isso sim. Eu acho que dá na mesma, mas eu digo expressão. Porque arte para mim – para mim, não! Que bobagem falar isto! – arte é pura expressão, o discurso dela é só expressivo… Ele não é político, ele não é religioso… (…) Mas o que você estava falando da participação, para mim é assim: algo – esse algo eu vou chamar de Deus – Ele quer se mostrar. Ele quer mostrar-se, Ele quer ser mirado. Então, uma das formas mais perfeitas, eu acho que aí há uma coisa de uma liberdade inaudita, que é o espaço da criação artística (que é onde você põe vaca roxa, põe acácia chorando, sei lá o que…).
Mas, então, é isso: é o terreno, para mim, da fé, que é a coisa mais livre que tem. É o “Curvai-vos!” se você não se curvar, você não fica livre. É aí. É aí, é na poesia, é na arte, mas vamos falar em poesia, porque é o nosso caso…
Então, eu vejo assim, as coisas como manifestação – até a cadeira de plástico (Adélia aponta para uma cadeira de plástico), ela manifesta. Manifesta, manifesta, manifesta, manifesta… E o homem faz o mundo (isso é uma idéia que me ocorreu no outro dia) o homem é criador, mas às avessas… Você veja, eu estava vendo um robô ontem, um robô francês, vendo na televisão, aquela parafernália, quer dizer, é o não-simples. É engraçado, o homem cria, mas é uma não-simplicidade; você fala: “Nossa, que computador complexo!” você fica maravilhado com a complexidade, enquanto que a criação divina é o avesso: é o simples, não é? Mas enfim são formas diversas, eu acho, da divindade e da manifestação: Deus precisa disto para que Ele se manifeste, para que a consciência ecloda em seu nível crença…

 

Ainda a Criação

LJ: Como pode haver um poeta ateu?

AP: Mas isso é uma contradição em termos, meu Jesus!, não é? é cada tombo que as pessoas levam. Engraçado, que os próprios poetas engajados e que advogam essa autonomia de seu poder sobre a escrita caem numa contradição maravilhosa, através das próprias obras que são melhores que eles. Porque o livro tem que ser melhor do que eu, senão ele não vale nada. O livro tem que ser melhor do que eu, a hora em que ele for igual a mim, eu tenho que ficar caladinha, quer dizer, cheguei à santidade, que é o que a gente, acho, deve querer, né? A gente diz: “Porque o meu livro…, porque o meu livro isso…, porque o meu livro aquilo…” e não é assim, se fosse assim, eu falava: “Hoje eu vou escrever um poema perfeito” e… não é assim… A coisa deseja ser vista, então é uma graça mesmo, é pura visão, é… não-lógica.

LJ: Na verdade um tema constante na sua poesia, constante também em S. Tomás é o de que a criação tem dois pólos: por um lado é participação do ser, do bem, da beleza de Deus; por outro, saiu do nada…

AP: Saiu do nada, sim, sim!

LJ: Por isso, Josef Pieper tem um capítulo fantástico, descrevendo a atitude diante da Criação, intitulado: “Psicose Maníaco-Depressiva”.

AP: Sim, concordo plenamente… Porque a coisa mais difícil é achar que eu não sou Deus… Porque na hora que você cai nisso, você diz: ou eu sou criatura ou eu não sou! (…) Isso vai muito dentro de uma coisa que você falou e que me alegrou muito: é uma coisa com relação ao sagrado: eu não faço poesia religiosa, num sentido que muita gente entende equivocadamente. O fato é que é a poesia é que é religiosa, ela é sagrada (é aquilo que a gente estava falando antes), então esses registros de natureza religiosa, confessional, são coisas da história da biografia do autor, que nada tem que ver, não é? 

Ela, em si mesma, é sagrada. Eu vi um poema de Alceu, que é pagão, anterior a Cristo e é igualzinho ao poema “No éter”, que eu escrevi. Foi uma das maiores emoções que eu tive… O poema “No éter” fala daquela hora da tarde, daquela hora em que as coisas reverberam… Eu fiquei assustadíssima. 

Quer dizer, é uma coisa só, o sujeito é pré-cristão, pagão, e está falando a mesma coisa que eu. Então há essa origem sagrada, não é? E com o amor é a mesma coisa, esse amorzinho nosso, essa peleja que é o sexo, porque é uma peleja, é tão discursivo, não é? Tem hora que eu fico…Que canseira… Dormir com outra pessoa é complicado demais… toda a discursividade do corpo, a miserabilidade do corpo, meu Deus! Então, eu vejo assim, quando eu estou falando de amor eu estou falando só de amor e em sua forma humana ele é discursivo, precário, mas é, em sua essência, bodas celestes.

LJ: Que quer dizer com “discursivo”?

AP: Discursivo é aquilo que não se exime de palavras… A poesia não pode ser discurso, ela não fala a respeito de… ou ela é a coisa ou ela não é poesia. Isto é, um poema sobre a rosa tem que ser a rosa, não pode pegar e falar: “Olha tô falando sobre a rosa…”: aí não é poesia mais, não! Então o poema, a diferença dele com outro discurso é que ele não é discurso. Ou: é um discurso não-discursivo… Esse amor humano, também ele é discursivo, enquanto processo, mas na sua essência… quando eu amo uma pessoa eu quero só olhar para ela, meu maior desejo é olhar… humanamente até, mas ele exige mais, ele exige uma humildade danada…

 

Filosofia, poesia e o realismo do cotidiano

LJ: Num projeto de mestrado que dirijo, estamos colocando lado a lado citações de Josef Pieper e de Adélia Prado. Por exemplo, o fato de ambos terem seu ponto de partida na admiração…

AP: mirandum.

LJ: …é uma palavra chave…

AP: é, é, é …

LJ: … e contemplação, mistério, porque o mundo foi feito pelo Verbo, pelo Logos então ele é “demais para a nossa cabeça”…

AP: “Os céus narram a glória de Deus”, é demais, não é?…

LJ: …e isto tudo em e a partir de uma realidade quotidiana…

AP: Claro… uma graminha pelejando para nascer na greta do muro… que coisa mais absurda e fenomenal!

LJ: Gosto demais de seu verso: “Tudo é Bíblias”

AP: Tudo é grande sertão!

LJ: Realidade quotidiana enquanto maravilhamento?

AP: Eu fui, digamos, classificada, muitas vezes, como uma dona de casa que faz poesia. Quando Bagagem saiu, em 1976, eu ouvia: “O que? uma dona de casa, você faz as coisas em casa mesmo? você tem filhos? Ah é? Que coisa, hein? Pois é…”. Então ficou mais ou menos assim: “ela fala do cotidiano, sabe?”. Mas, onde é que estão os grandes temas? Para mim, aí é que está o grande equívoco. O grande tema é o real, o real; o real é o grande tema. E onde é que nós temos o real? é na cena

quotidiana. 

Todo mundo só tem o cotidiano e não tem outra coisa. Eu tenho este corpo que eu carrego (ou ele me carrega… o burro) (1) e a vidinha de todo dia com suas necessidades mais primárias e irreprimíveis. É nisso que a metafísica pisca para mim (risos) e a coisa da transcendência: quer dizer: a transcendência mora, pousa nas coisas… está pousada ou está encarnada nas coisas. Então não há o que dizer: não adianta você querer escolher grandes temas; é o grande tema que escolhe, isso é um lugar comum, todo autor fala disso, mas realmente é assim: você é escolhido… Que que é o grande tema? é o real. E o real configurado no amor, na morte, nas mais diversas paixões que nos habitam e nas virtudes também. Então eu não vejo onde é que eu busco poesia… ela já está – o Reino já está no meio de vós… – é isso aí…

LJ: A inspiração, como vem? Por que essa realidade quotidiana às vezes se mostra como maravilhamento e outras vezes como mera realidade opaca?

AP: Quando ela é realidade opaca é aquilo do meu verso “De vez em quando, Deus

me tira a poesia e eu olho pedras e vejo pedra mesmo…” (“Ausência da Poesia”). Outro dia – eu achei fantástico! – um comentarista de futebol fez uma crônica e me citou – eu me senti tão importante… Ele, falando sobre a seleção brasileira (2), disse: “é como diz Adélia Prado: ‘Eu olho Dunga e vejo Dunga mesmo'” (risos). Eu achei legal, fez o maior sucesso lá em casa, todos gostaram… Vê-se que ele entendeu o poema…


Notas

(1) Alusão a S. Francisco de Assis, que chamava o corpo de “o burro”. [volta]

(2) A entrevista ocorreu antes do tetra-campeonato, num momento em que a seleção (e, particularmente, Dunga e Zinho) sofria duras críticas por parte da imprensa futebolística. [volta]


Publicada na Revista Eletrônica Videtur, nº 9.